Sempre ouvi dizer que a vida ensina e que o tempo cura tudo. Mas hoje preciso te contar que certas coisas a vida ainda não fez o favor de me ensinar e que o tempo se atrasou e ainda não veio me libertar de uns desejos.
Vou começar por eles. Eu queria umas coisas que nunca vou ter. Queria ser canhota. Queria ter o pé mais bonitinho. Queria ter os dois dedos das mãos iguais. Queria ter uma boca um pouco mais carnuda. Uma canela menos grossa. Um coração menorzinho. Uma sensibilidade contida, pois a minha nunca se segura. Queria ter a coxa mais grossa. Queria que esse sentimento que nunca dorme ou cala me deixasse por algumas horas. Mas não tem jeito. Sou eu e meus defeitos, eu e toda essa enxurrada de emoção, amor, contradição, tumulto, eu e essa multidão. Porque eu sou uma multidão todos os dias. E isso me assusta.
O tempo nem sempre cura tudo. Tenho feridas que já cicatrizaram, mas que insistem em latejar quando o dia está nublado. Tenho mágoas que já foram superadas, mas se lembro bem, se lembro forte, se penso nelas eu choro. E o choro dói, dói, dói como se fosse ontem. Tenho vontades que nunca passam. Tenho uma tara por chocolate . Tenho mania de escrever em blocos quando estou no tédio. Tenho sentimento de posse, tenho ciúme, tenho medo de perder quem é essencial na minha vida. Tenho medo de me perder, por isso acendo todas as luzes. A vida me ensinou a perdoar os outros. Mas fez questão de me mostrar que a gente pode perdoar sem esquecer. Minha memória é boa, sei quem pisou na bola. Aceito que as pessoas errem uma ou dez vezes, desde que se arrependam com o coração. Arrependimentos da boca para fora nunca me convenceram, apesar de eu já ter caído em ladainhas toscas sem fim. A vida ainda não me ensinou a me perdoar. Meu Deus, eu não gosto de pedir ajuda. Nunca gostei de depender dos outros. E tem mais: não consigo dizer eu-preciso-de-você-agora. Sei que é simples, mas não sai. Algo me trava, a voz não sai.
Pra quê isso tudo ? Pra quê orgulho ?
Tem hora que tudo isso cansa .

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